segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Psicologia e Marxismo: A exclusão social
O tema da inclusão social vem sendo constantemente abordado nos dias de hoje, seja por meio de comerciais televisivos ou então através de programas implementados pelo próprio governo federal, como ocorrido no caso da cartilha distribuída nas escolas em defesa do respeito a homossexualidade.
Todo este trabalho de informação que vem sendo desenvolvido tem sua validade, contudo devemo-nos perguntar se isto por si só trata-se de um meio efetivo para que de fato ocorra a inclusão social? Acredito que com a própria denominação que utilizei para adjetivar o método enquanto "informativo" é o suficiente para percebermos que em termos de intervenção prática este método deixa a desejar. Mas por que motivo?
Acredito que a obra organizada pela psicóloga social Bader Sawaia intitulada "As artimanhas da exclusão" oferece uma interessante fundamentação teórica para esta discussão.
Segundo Sawaia a exclusão tem sido refletida como um fenômeno abstrato desligado das condições sociais e históricas, uma mera falha da sociedade, quando que na verdade trata-se não de erros, de falhas do sistema, mas sim como um produto da própria dinâmica do funcionamento social do capitalismo.
Mas fica a pergunta: "Se o capitalismo tem por essência excluir determinados grupos sociais, qual o motivo para a implementação de programas inclusivos como os comerciais globais ou então os programas federais? Desta forma, se está trabalhando para inclusão!"
É paradoxal esta situação, mas totalmente compreensível. O conceito de "Inclusão Perversa" utilizado por Sawaia parece dar conta de explicar esta situação. O que ocorre é que estes sujeitos, os "incluídos perversamente" ou então "excluídos" são inseridos na sociedade e a eles são oferecidas condições mínimas para que possam estar a serviço da ordem vigente. De certa forma, todos estamos inseridos no circuito reprodutivo das atividades econômicas, mas a grande maioria da humanidade é inserida através da insuficiência e das privações que se desdobram para fora do econômico. Seja a criança com deficiência que é posta na escola pública e sofre com as falhas estruturais e pedagógicas ou então o estudante que adquire uma bolsa de estudos, mas que não consegue se manter na universidade devido aos altos custos de livros, de alimentação, de transporte ou então da dificuldade de conciliação entre trabalho e estudo.
Todo este movimento sutil arquitetado pelos donos dos meios de produção acarreta sofrimento duplo no indivíduo. Em primeiro lugar por não permitir o objetivo principal, seja o fato de conseguir estudar ou então de trabalhar. E em segundo lugar por responsabilizar o indivíduo pelo fracasso, afinal foram oferecidas as "condições" para ele triunfar.
Na minha opinião pessoal este texto tira a psicologia do papel passivo que ocupa em certos momentos, demonstrado que a função do psicólogo deve ser acima de tudo envolvida com os processos sociais, com o intuito de conscientizar social e historicamente o indivíduo, situar o sujeito na sociedade que se encontra, levar este a reflexão do papel e do lugar social que ocupa para que realmente possam ocorrer transformações na esfera social como um todo, transformações estas que só serão possíveis a partir do compromisso ético do psicólogo em preparar o indivíduo para a sociedade na qual este está imerso, do contrário é inútil a tratar o sujeito e devolvê-lo para uma estrutura social doentia e predatória, é preciso auxiliar o indivíduo a refletir sobre sua condição social, isto é muito mais efetivo do que apenas informar!
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Arte e Psicanálise
"A relação do artista com o tempo no qual ele se manifesta é sempre contraditória. É sempre contra as normas reinantes, normas políticas por exemplo, ou até mesmo esquemas de pensamento, é sempre contra a corrente que a arte tenta operar novamente sem milagre." Jacques Lacan - A Ética da Psicanálise.
As descobertas de Freud sobre o funcionamento da mente humana e a importância que este atribuiu ao Inconsciente favoreceram o desenvolvimento de novas escolas literárias e artísticas, dentre estas o Simbolismo e o Surrealismo. Particularmente foi a França o lócus de maior importância para a expressão desta forma artística renovada. Contrapondo as tendências positivistas do Naturalismo e do Realismo, o Simbolismo e o Surrealismo resgataram a dimensão desconhecida do ser humano, colocando em questão a condição paradoxal da essência humana.
Balada de Loucos - Cruz e Souza
Mudos atalhos afora, na soturnidade de alta noite, eu e ela caminhávamos.
Eu, no calabouço sinistro de uma dor absurda, como de feras devorando entranhas, sentindo uma sensibilidade atroz morder-me, dilacerar-me.
Ela transfigurada por tremenda alienação, louca rezando e soluçando baixinho rezas bárbaras.
Eu e ela, ela e eu! Ambos alucinados, loucos, na sensação inédita de uma dor jamais experimentada.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
A Formação em Psicologia
Um dos temas que mais me deixaram intrigados ao longo do curso de psicologia (e ainda me deixam) diz respeito a formação do psicólogo. A formação do psicólogo de certa forma em termos de "obrigatoriedade" segue a mesma linha das demais profissões, sendo composta por aulas teóricas e pelo estágio supervisionado. Além destas duas dimensões da formação citadas, as aulas teóricas e o estágio supervisionado, existe um terceiro aspecto "muito importante", segundo os professores, o tratamento terapêutico ao qual o graduando em psicologia deve-se submeter.
É curioso o fato de que mesmo com os professores (psicólogos em exercício) defendendo a necessidade dos alunos entrarem em tratamento psicoterápico, o Conselho Federal de Psicologia até hoje não determinou como um processo necessário e obrigatório a formação de psicólogo o tratamento psicológico.
Eu sinceramente desconheço as alegações do Conselho Federal de não colocar caráter de obrigatoriedade no tratamento dos futuros psicólogos. O que me chama a atenção é o fato de a cada dia vermos inúmeros processos judiciais contra psicólogos credenciados ao Conselho por infringirem as normas do código de ética profissional. Bom, mas podem me perguntar que relação existe entre o aluno não fazer terapia e ser um psicólogo que desrespeita as normas éticas da profissão. Convenhamos que a disciplina de ética nos fornece subsídios informativos necessários para nosso exercício profissional, contudo, é evidente acredito, pelo menos para alunos de psicologia que nossa ferramenta de trabalho, a nossa subjetividade é algo extremamente complexo, do qual nós mesmos temos dificuldades de obter "controle".
Devem estar me achando um maluco por relacionar coisas que a princípio parecem não ter nexo. Mas acreditem, tem relação. Já ouvi da boca de meus professores inúmeros relatos de casos de psicólogos, eu diria pseudo-psicólogos desenvolverem atitudes "terapêuticas" fantásticas, como jogar um lençol sobre o paciente ou então pedir pare o paciente escrever tudo que está sentindo em um papel e depois jogar fora. Estes são exemplos de total falta de cientificidade no exercício profissional e que ao meu ver tem ligação direta com o não tratamento do aluno.
Se o indivíduo recorre a práticas fantásticas como estas é porque provavelmente nunca se deparou com um processo psicoterápico de base científica, ainda acredita em "milagres". Fazer terapia, seja esta de qualquer escola teórica permite ao indivíduo comprovar a eficiência a partir da amenização do próprio sofrimento e acima de tudo o desenvolvimento do auto-conhecimento.
Colocar-se em trabalho terapêutico auxilia o aluno a articulação da teoria com a prática, permite o desvelamento dos mais insuportáveis pré-conceitos dos quais todos somos possuidores e de todas as fraquezas afetivas que nos desequilibram frente a situações difíceis. O aluno que não conhece suas fraquezas, que não tem noção de que é possuidor de ideias preconceituosas e de que nem ao menos possui uma noção básica do funcionamento da mente humana chegará ao 5º ano no estágio clínico com grandes dificuldades que provavelmente serão contornadas pelo orientador, mas seu futuro profissional será uma interrogação, pode até não cometer nenhum tipo de infração contra o código de ética, mas será que estrutura psíquica para auxiliar outra pessoa a amenizar seus sofrimentos, sendo que nunca colocou em questão sua própria interioridade?
É curioso o fato de que mesmo com os professores (psicólogos em exercício) defendendo a necessidade dos alunos entrarem em tratamento psicoterápico, o Conselho Federal de Psicologia até hoje não determinou como um processo necessário e obrigatório a formação de psicólogo o tratamento psicológico.
Eu sinceramente desconheço as alegações do Conselho Federal de não colocar caráter de obrigatoriedade no tratamento dos futuros psicólogos. O que me chama a atenção é o fato de a cada dia vermos inúmeros processos judiciais contra psicólogos credenciados ao Conselho por infringirem as normas do código de ética profissional. Bom, mas podem me perguntar que relação existe entre o aluno não fazer terapia e ser um psicólogo que desrespeita as normas éticas da profissão. Convenhamos que a disciplina de ética nos fornece subsídios informativos necessários para nosso exercício profissional, contudo, é evidente acredito, pelo menos para alunos de psicologia que nossa ferramenta de trabalho, a nossa subjetividade é algo extremamente complexo, do qual nós mesmos temos dificuldades de obter "controle".
Devem estar me achando um maluco por relacionar coisas que a princípio parecem não ter nexo. Mas acreditem, tem relação. Já ouvi da boca de meus professores inúmeros relatos de casos de psicólogos, eu diria pseudo-psicólogos desenvolverem atitudes "terapêuticas" fantásticas, como jogar um lençol sobre o paciente ou então pedir pare o paciente escrever tudo que está sentindo em um papel e depois jogar fora. Estes são exemplos de total falta de cientificidade no exercício profissional e que ao meu ver tem ligação direta com o não tratamento do aluno.
Se o indivíduo recorre a práticas fantásticas como estas é porque provavelmente nunca se deparou com um processo psicoterápico de base científica, ainda acredita em "milagres". Fazer terapia, seja esta de qualquer escola teórica permite ao indivíduo comprovar a eficiência a partir da amenização do próprio sofrimento e acima de tudo o desenvolvimento do auto-conhecimento.
Colocar-se em trabalho terapêutico auxilia o aluno a articulação da teoria com a prática, permite o desvelamento dos mais insuportáveis pré-conceitos dos quais todos somos possuidores e de todas as fraquezas afetivas que nos desequilibram frente a situações difíceis. O aluno que não conhece suas fraquezas, que não tem noção de que é possuidor de ideias preconceituosas e de que nem ao menos possui uma noção básica do funcionamento da mente humana chegará ao 5º ano no estágio clínico com grandes dificuldades que provavelmente serão contornadas pelo orientador, mas seu futuro profissional será uma interrogação, pode até não cometer nenhum tipo de infração contra o código de ética, mas será que estrutura psíquica para auxiliar outra pessoa a amenizar seus sofrimentos, sendo que nunca colocou em questão sua própria interioridade?
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